Dor na lateral do quadril ao deitar de lado? Pode ser bursite
Uma dor na parte de fora do quadril que piora ao deitar sobre o lado, caminhar ou subir escadas é uma das queixas mais comuns na fisioterapia — e costuma ser a chamada bursite trocantérica. A ciência recente trouxe uma virada importante aqui: para a maioria dos casos, educação e exercício funcionam melhor do que injeção de corticoide a médio e longo prazo.
O que é a bursite trocantérica
Na lateral do quadril existe uma saliência óssea (o trocânter maior) recoberta por tendões dos músculos glúteos e por uma pequena bolsa de líquido, a bursa, que reduz o atrito na região. Quando esses tendões e essa bolsa ficam sobrecarregados ou irritados, surge a dor lateral no quadril.
Hoje os especialistas entendem que, na maior parte das vezes, o problema principal está nos tendões dos glúteos (uma tendinopatia) mais do que numa inflamação isolada da bursa. Por isso o quadro também é chamado de síndrome dolorosa do trocânter maior. É muito frequente em mulheres e em quem caminha ou corre bastante.
Sintomas típicos
- Dor na lateral do quadril, sobre a "saliência" óssea de fora;
- Piora ao deitar sobre o lado afetado — muita gente acorda à noite por causa disso;
- Dor ao caminhar, subir escadas ou levantar da cadeira;
- Sensibilidade ao apertar a região;
- A dor pode descer pela lateral da coxa (mas raramente passa do joelho).
Por que acontece
A bursite trocantérica costuma resultar de sobrecarga dos tendões do quadril, favorecida por:
- Fraqueza dos músculos glúteos e do quadril;
- Alterações da marcha e da postura;
- Aumento rápido de caminhada, corrida ou treino;
- Ficar muito tempo em pé apoiando o peso sempre do mesmo lado;
- Cruzar as pernas por longos períodos ou dormir "torcendo" o quadril.
O que a ciência mostra
Este é um dos pontos em que a evidência mudou a prática. Um ensaio clínico randomizado de referência, conhecido como estudo LEAP e publicado no BMJ em 2018, comparou três caminhos: educação + exercício, injeção de corticoide e "esperar para ver". O resultado: o grupo de educação e exercício teve os melhores resultados de melhora global e alívio da dor — superando tanto a injeção quanto a conduta de apenas esperar.
E não parou aí: uma avaliação econômica do mesmo estudo (2022) mostrou que educação e exercício melhoram a qualidade de vida e têm melhor custo-benefício do que a injeção de corticoide e do que não fazer nada. A injeção pode aliviar rápido no começo, mas o efeito tende a não se sustentar. Traduzindo para o dia a dia: fortalecer o quadril e ajustar as cargas é o tratamento com melhor respaldo para esse problema.
Como tratamos na clínica
Seguindo essa evidência, o foco é recuperar a função dos tendões e reduzir a sobrecarga:
- Controle da dor na fase inicial, junto de orientações de carga (como se posicionar, dormir e se movimentar sem forçar o lado dolorido);
- Fortalecimento progressivo dos glúteos e dos músculos que estabilizam o quadril;
- Correção da marcha e da postura que sobrecarregam a região;
- Ajuste gradual das atividades de caminhada, corrida ou treino;
- Educação sobre o quadro — entender o problema é parte do tratamento e reduz o medo de se movimentar.
Quando os músculos do quadril voltam a trabalhar bem, a sobrecarga sobre os tendões e a bursa diminui e a dor tende a desaparecer.
Quanto tempo leva para melhorar
Tendões respondem de forma gradual: a melhora costuma acontecer ao longo de algumas semanas a poucos meses, com progressão de carga bem orientada. A constância nos exercícios e a paciência com a evolução são decisivas — pular etapas ou parar cedo demais é o que mais atrapalha.
Quando procurar avaliação com atenção
Procure avaliação, sobretudo, se a dor no quadril:
- Surgiu após uma queda ou pancada e é muito intensa;
- Impede de apoiar o peso na perna;
- Vem com inchaço, vermelhidão ou febre;
- Não melhora e já atrapalha o sono e a rotina.
Perguntas frequentes
Bursite no quadril tem cura? Sim, a maioria das pessoas melhora bem com tratamento conservador. Como o fator central costuma ser a sobrecarga dos tendões, fortalecer e reequilibrar o quadril resolve o problema pela raiz na maior parte dos casos.
Preciso tomar injeção de corticoide? Nem sempre — e a ciência recente mostra que educação e exercício tendem a dar resultado melhor e mais duradouro. A injeção pode ser considerada em situações específicas, sempre com indicação médica, mas não costuma ser o primeiro passo.
Posso continuar caminhando ou correndo? Em geral sim, com ajustes. O objetivo não é parar tudo, e sim dosar a carga enquanto o tendão se recupera. A progressão é orientada caso a caso.
Como dormir com bursite trocantérica? Evitar deitar sobre o lado dolorido e usar um travesseiro entre os joelhos ao deitar de lado costuma reduzir a dor noturna. São ajustes simples que fazem diferença no início.
Referências
- Educação + exercício vs. injeção de corticoide vs. "esperar para ver" na tendinopatia glútea — ensaio clínico randomizado LEAP (BMJ, 2018)
- Educação + exercício melhora a qualidade de vida e é custo-efetivo — avaliação econômica do estudo LEAP (2022)
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Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação profissional individual.